domingo, 4 de fevereiro de 2024

Busca desenfreada por honra, aplauso e adoração

 

São Paulo escrevendo aos romanos a mais de dois mil anos já alertava: “A criação foi sujeita ao que é vão e ilusório (Rm 8,20).

Na trajetória tumultuada da humanidade, uma sombra persistente se delineia: a sujeição à vaidade. Como se tocados por uma obsessão incontrolável, os indivíduos anseiam não apenas pelo domínio do mundo, mas também por subjugar cada alma que compartilha este planeta. A ambição desmedida dita regras, e a sede louca e insaciável por honra, aplauso e adoração se torna uma força de movimento inegável.

Em sua busca incessante pelo poder absoluto, a humanidade revela uma faceta obscura, disposta a transgredir limites éticos e morais. Se oferecessem o mundo como um tabuleiro de xadrez, muitos moveriam suas peças com voracidade, ignorando as consequências sobre aqueles que caem como peões em sua trajetória implacável.

A vontade de subjugar não se limita a terras e fronteiras; estende-se aos corações e mentes, criando uma teia de dominação que ameaça a essência mesma da convivência humana. A sede de aplausos e adulações transforma-se em um combustível para ações questionáveis, onde o indivíduo sacrifica princípios em troca de uma efêmera validação externa, onde por fora “bela viola, por dentro, pão bolorento”. Nosso Mestre e Senhor já os chamava de sepulcro caiado a dois mil anos.

A apropriação desenfreada de criaturas, sejam elas seres humanos, animais ou recursos naturais, ilustra a natureza insaciável desse anseio desenfreado. A humanidade, às vezes, parece esquecer que compartilha o mesmo lar com milhares de formas de vida, todas merecedoras de respeito e preservação.

A jornada rumo à transcendência desse impulso desenfreado é um desafio coletivo. Ao reconhecer a fragilidade dessa busca desenfreada por glória pessoal, a humanidade pode encontrar um caminho mais equilibrado, onde a compaixão e a colaboração substituam a tirania da vaidade. É na busca por uma honra pura, construída sobre a base do respeito mútuo, que a humanidade pode redescobrir sua verdadeira grandeza.

Peçamos a Deus, na intercessão de Nossa Senhora, mãe dos humildes, o Dom da Humildade, tão necessária aos tempos modernos. Amém!

Nossa Senhora, Rainha do Céu e da Terra

Maria é venerada como a rainha do céu e da terra por graça divina, enquanto Jesus Cristo ostenta tal título por natureza e conquista. Nessa comparação, podemos entender que, da mesma forma que o Reino de Jesus se estabelece no coração e no âmago do ser humano, conforme proclamado nas palavras "O reino de Deus está dentro de vós", o Reino da Santíssima Virgem encontra sua morada principal no interior da alma humana.


É no santuário da alma que Maria é exaltada em comunhão com seu Filho de maneira mais sublime do que em todas as criaturas visíveis. Assim como os santos a designaram, podemos chamá-la de "Rainha dos Corações". Sua glória resplandece de modo especial nas almas que a acolhem, tornando-se um reflexo brilhante da união maternal entre Maria e Jesus.

Ao reconhecer Maria como Rainha dos Corações, entendemos que sua realeza transcende a esfera terrena e se manifesta de maneira mais significativa no domínio interior e espiritual. É na entrega sincera da alma que ela exerce sua soberania, guiando e abençoando aqueles que a acolhem como Rainha e Mãe.

Assim, Maria não apenas ocupa um lugar especial na devoção católica, mas se torna uma guia compassiva e um farol luminoso nos corações daqueles que buscam aprofundar sua relação com o divino. Sua presença é uma fonte inesgotável de graças e bênçãos, manifestando-se de maneira única na interioridade de cada ser humano que reconhece sua Rainha dos Corações.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Alma devota, verdadeira ou falsa

A verdadeira devoção se revela na adversidade, quando a tempestade da vida se abate sobre nós. É fácil ser devoto fervoroso quando a bonança reina, quando a saúde é robusta e os recursos financeiros são abundantes. Contudo, é nos momentos de aflição que a autenticidade da devoção é posta à prova. Muitos, com almas delicadas, prestam homenagem a Deus apenas quando tudo está em paz. No entanto, diante do sofrimento e da adversidade, essas almas vacilam, abandonam a fé, queixam-se da providência e, por vezes, em um ato de desespero, profanam a bondade divina com blasfêmias.

Assim, é, entre os altos e baixos, que se revela a verdadeira natureza da devoção. É nos momentos de escuridão que a luz da fé brilha mais intensamente, e é na adversidade que a verdadeira devoção se diferencia da falsa. Que possamos, ao enfrentar as contradições da vida, fortalecer nossa devoção, compreendendo que, mesmo nos desafios mais árduos, os desígnios de Deus nos conduzem a uma conquista do céu mais meritória.

Na busca pela compreensão dos desígnios de Deus, percebemos que algumas desgraças, muitas vezes, são instrumentos da providência divina, enquanto sucessos aparentes podem se revelar como castigos disfarçados. Nesse tabuleiro da existência, o descanso completo parece um sonho inatingível, uma vez que estamos imersos em uma mistura de experiências, algumas das quais desafiadoras e outras aparentemente gratificantes.

É na adversidade que se forja o verdadeiro caráter da devoção. A autenticidade da fé não é plenamente revelada nos momentos de bonança, quando a saúde floresce e os recursos financeiros fluem abundantemente. A devoção genuína se destaca quando as tempestades da vida desabam sobre nós, quando a saúde vacila e os recursos se escasseiam. Nesses momentos cruciais, é que se revela se a devoção é sólida e sincera, ou se é apenas uma fachada frágil que desmorona diante das dificuldades.

Muitas almas, delicadas em sua devoção, encontram-se firmes apenas quando a maré da vida está a seu favor. No entanto, no sofrimento e na adversidade, revelam-se as verdadeiras faces de sua fé. Algumas abandonam Deus, questionam a providência e proferem blasfêmias contra a bondade divina quando confrontadas com as agruras da existência. É nos momentos sombrios que se distingue a devoção verdadeira daquela que é superficial, meramente condicionada pelo bem-estar material.

Assim, diante das incertezas e desafios da vida, somos desafiados a adorar os desígnios de Deus, compreendendo que, mesmo nos momentos mais difíceis, a jornada terrena visa tornar nossa conquista do Céu mais meritória. A verdadeira devoção é aquela que persiste e se fortalece na tempestade, pois é no enfrentamento das adversidades que nossa ligação com o divino é verdadeiramente testada e aprofundada.

Maria Santíssima, a medianeira de todas as graças, interceda para que tenhamos cada vez mais uma devoção autêntica, Amém!

A Vós, ó Deus louvamos! (31 de Dez de 2023)

 

Mais um ano que se passa, mais um capítulo escrito na grande jornada da vida. Diante do calendário que se renova, reflito sobre os passos dados, os sorrisos compartilhados e as lágrimas derramadas. Foi um período de desafios e vitórias, de dores e alegrias, um ciclo que se encerra para dar lugar a um novo começo.



Ao olhar para trás, questiono a natureza da minha jornada. Fui feliz ou desgraçado? As respostas, talvez, se escondam nas entrelinhas do destino, nos desígnios divinos que regem nossa existência. Somente Tu, meu Deus, conheces a verdade que se esconde por trás de tantas experiências, as horas amargas e os golpes que dilaceraram meu coração ao longo destes 365 dias.

Agradeço, Senhor, por todos os benefícios que Tua misericórdia concedeu. Cada desafio, cada lágrima, aceito como uma oportunidade de expiação, unindo minhas dores e aflições ao mérito das Vossas Santas Chagas. Que meu sofrimento, em comunhão com a Cruz, possa purificar-me de meus inúmeros pecados.

Deus dos humildes, pobres, infelizes e dos que choram, olhai para o meu coração. Um coração tantas vezes seduzido pelas belezas efêmeras deste mundo, que busca uma felicidade e paz verdadeiras, mas que muitas vezes se perde na ilusão das criaturas. Dai-me, Senhor, um coração totalmente Vosso, livre das armadilhas das tentações mundanas.

Ó Deus, solução para todos os problemas, meu ideal supremo! Que Vossa presença console as solidões mais devastadas, console as dores mais profundas e aqueça os corações mais frios. Em Vós, Senhor, encontro compreensão para todas as aspirações, proteção para todas as liberdades, respeito para todos os sentimentos e restauração para todas as ruínas.

Acalmai as paixões, fortificai as vontades, sustentai os fracos, dilatai os corações. Dai-nos, Senhor, a paz que só pode ser encontrada em Vossa misericórdia e verdade. Deus, minha fonte de misericórdia e verdade, sois meu Tudo. Que este novo ano seja guiado pela Vossa luz e repleto da Vossa graça. Amém.

A Paciência tudo alcança (Santa Tereza D’Ávila)

 

São Paulo exortava os romanos com a sabedoria que transcende o tempo: "…Sedes pacientes na tribulação…" Essa mensagem atemporal ressoa através das eras, ecoando a importância de cultivar a virtude da paciência, uma qualidade que transcende as circunstâncias adversas.



Dentro desse mesmo contexto, Santa Tereza adicionava seu sábio conselho: "…A paciência tudo alcança…" Essas palavras, pronunciadas por uma figura tão venerada, reforçam a ideia de que a paciência não é apenas uma qualidade desejável, mas uma força capaz de superar desafios e alcançar realizações notáveis.

A paciência, portanto, emerge como uma virtude heroica. As escrituras sagradas sustentam que é melhor ser um homem paciente do que um guerreiro conquistador de cidades, e que a paciência supera a força bruta. Os teólogos, ao classificarem as virtudes, geralmente as agrupam nas chamadas virtudes cardeais.

Embora a paciência devesse, à primeira vista, ser parte das virtudes da Temperança, ela foi categorizada como parte da Fortaleza. Isso ressalta o fato de que o verdadeiro forte é aquele que possui paciência. Adolphe Tanquerey a classifica como uma das virtudes conexas com a virtude da Fortaleza. 

Segundo o grande teólogo “A paciência é uma virtude cristã que nos faz suportar com serenidade de alma, por amor a Deus e em união com Jesus Cristo, sofrimentos físicos e morais. Ainda segundo Tanquerey, todos sofrem o suficiente para ser santos, desde que saibam suportar corajosamente e por motivos sobrenaturais.

A paciência, muitas vezes, é uma virtude discreta, silenciosa e desprovida de brilho superficial. Enquanto algumas virtudes são visíveis, admiradas e recompensadas por todos, a paciência é como a violeta, que passa despercebida até que seu suave e divino perfume seja notado. 

As grandes virtudes, aquelas que são perceptíveis aos olhos humanos, podem ser mais acessíveis e atraentes. No entanto, as virtudes ocultas, como a paciência, são mais desafiadoras e pesadas.

Exercitar a paciência envolve suportar o sofrimento sem que ninguém o perceba, manter um sorriso em meio à adversidade e lançar um olhar de doçura em direção aos inimigos ou àqueles que nos maltratam e perseguem. Buscar a perfeição em cada situação, muitas vezes, demanda sacrifício. 
A verdadeira grandeza de alma revela-se na capacidade de resistir e perseverar nessa luta cotidiana.

Assim, a paciência é verdadeiramente a virtude dos heróis. É um atributo que não apenas suaviza as asperezas da vida, mas também eleva aqueles que a cultivam a patamares de grandeza moral e espiritual. 

Enquanto as outras virtudes capturam a atenção, a paciência é discreta e persistente, que se revela como a força silenciosa por trás das verdadeiras conquistas humanas.

Na intercessão de Nossa Senhora, peçamos a Deus a virtude da paciência!

A Caridade verdadeira não é um ato revolucionário

Hoje, observo com apreensão a postura de alguns leigos católicos, e até mesmo de alguns sacerdotes ordenados, e, pasmem até bispos católicos, que parecem querer transformar a igreja em um palco para exibição do que pode chamar de "misericordismo". É preocupante perceber tentativas de utilizar as nobres ações de misericórdia como instrumento de promoção pessoal ou política. Este fenômeno representa um perigo latente para o objetivo primordial da santa igreja no mundo: conduzir as almas à salvação, conforme ensinado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

A verdadeira essência da igreja reside na propagação do amor, compaixão e misericórdia, refletindo os ensinamentos do Divino Mestre. No entanto, quando tais princípios são deturpados para servir a interesses pessoais ou agendas políticas, o propósito sagrado da igreja fica comprometido.



O uso indevido das ações de misericórdia, seja como meio de autopromoção ou como ferramenta política, desvirtua a mensagem central da igreja. Em vez de focar na condução das almas para a salvação, esse comportamento desloca a atenção para objetivos menos nobres, obscurecendo a verdadeira missão espiritual.

É crucial que todos os membros da igreja, leigos e clérigos, estejam vigilantes e comprometidos com a autenticidade do serviço misericordioso. A busca pela salvação das almas deve transcender qualquer motivação egoísta, mantendo-se alinhada com os princípios fundamentais do cristianismo.

Assim, insta-se a comunidade católica a permanecer fiel à mensagem original de amor e misericórdia, preservando a integridade da igreja como instrumento divino para a redenção espiritual e salvação das almas. Que cada ação de misericórdia seja uma expressão genuína do amor cristão, contribuindo para o propósito sublime de guiar as almas pelo caminho da salvação, em consonância com os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Parte superior do formulário


A caridade é uma característica particular ao catolicismo, historicamente enraizada e difundida pela igreja ao longo dos séculos. Esse valor transcende as eras, tornando-se uma rotina na vida social e ganhando espaço como um mandamento divino.

A essência da caridade católica, através das obras de misericórdia, vai além do simples assistencialismo barato. Não se trata de um ato movido por interesses políticos, revolucionários ou trocas de favores, mas sim de uma expressão genuína do amor ao próximo. 

Enquanto o assistencialismo político busca votos, o artístico procura promoção e o ateu age por sentimentalismo, a caridade católica emerge como um compromisso divino, uma condição para a salvação eterna.

No centro dessa prática está a visão do católico sobre o pobre: não apenas como um necessitado de recursos materiais, mas como a representação de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra. O verdadeiro católico busca, além de prover alimento, restaurar a dignidade do necessitado como filho de Deus.

O católico vê no pobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e busca dar a ele, mais do que pão, a dignidade de um filho de Deus. Basta ver o trabalho de São Vicente de Paulo, de Santa Tereza de Calcutá e Santa Dulce dos Pobres, que nunca fizeram da caridade um ato político revolucionário, mas sim uma escada de salvação não só para eles, mas para tantos outros, como o Beato Frederico Ozanan, que inspirando em São Vicente de Paulo, promoveu grande diferença no mundo.

A caridade católica não se limita a gestos isolados, mas influencia vidas de maneira profunda e transformadora. Exemplos como do Beato Frederico Ozanan, demonstram que a verdadeira caridade não é um ato político revolucionário, mas sim um compromisso de amor e serviço ao próximo. Assim, a caridade católica perdura como uma força generosa que é capaz de transcender tempos e ideologias, moldando corações e proporcionando esperança a todos que a ela recorrem.

Rezemos para que tenhamos a graça da verdadeira caridade, desapegada de retornos materiais. Amém!

domingo, 13 de setembro de 2015

Obras de misericórdia corporais

Disse Jesus, de quem nos esforçamos para sermos discípulos: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6, 36). Ainda, em outro momento reafirmou citando o Profeta Oséias:”Quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9, 13); e, mais uma vez insistiu nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7).
O quanto Deus é misericordioso, não me proponho a descrever neste artigo, pois pressuponho já ser uma verdade, assimilada, experimentada, e profundamente internalizada, por você querido (a) leitor (a).
Proponho-me a discorrer e aprofundar uma reflexão sobre: o que é ser misericordioso, e em que consiste fazer obras de misericórdia.
Ter misericórdia não é ter pena da alguém. Longe disto, ter e exercitar a misericórdia é ter compaixão, e solidariedade para com a necessidade do outro. Mais do que só dar esmola, é descer até a carência física, espiritual e material da outra pessoa envolvendo-a com nosso ser e elevando-a à dignidade e à vida.
Partindo da Palavra de Deus, como citarei, e da tradição da Igreja (CIC § 2447), podemos falar em quatorze obras de misericórdia. Das quais, sete são obras de misericórdia espirituais e sete corporais.


As obras de misericórdia corporais são:

- Dar de comer a quem tem fome.
Várias vezes, Nosso Senhor Jesus Cristo se preocupou com a fome dos que O seguiam (Lc 9, 10-17). Seu mandato ecoa até hoje:”Daí-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9, 13).
Pe. Zezinho expressa muito bem isto na letra de sua canção: ”somos a Igreja do pão, do pão repartido, do abraço e da paz.” É bem verdade que nossas cestas básicas, missas do quilo e “sopões”, servidos nas madrugadas frias, não resolvem os problemas sociais, mas é uma solução imediata que sacia quem sente o desespero da fome. 
É urgente e necessário que avancemos em políticas sócias que atinjam a causa da fome, mas enquanto não chegamos ao ideal, exercitemos a partilha no real. “Quem tiver muita roupa partilhe com quem não tem, e faça o mesmo quem tiver alimentos (Lc 3, 11).”

- Dar abrigo aos peregrinos.
Jesus foi um desabrigado já em seu nascimento, quando negaram a José e Maria que estava para dar à luz, um lugar na hospedaria (Lc 2,7).
Tendo em vista que a realidade dos tempos de Jesus era muito diferente da realidade dos tempos atuais, torna-se complicado, perigoso e é até ingenuidade de nossa parte querer acolher em nossas casas, pedintes ou moradores de rua. Porém, Deus suscita obras de acolhimento na Igreja, através dos padres, religiosos (as), e leigos (as), que nos permite praticar esta obra de misericórdia, com nossa ajuda concreta. 
Como cidadãos, cristãos, ou enquanto comunidade, somos chamados a contribuir economicamente e voluntariamente nos serviços desta obra.
Não podemos eximir o poder público de uma política habitacional, ao contrário, é nosso dever como cristãos, estar atentos a isto, como obra de misericórdia. No entanto, partilho que conheço inúmeros casos de famílias nos grandes centros que acolhem pessoas vindas do interior até que estas se estabeleçam economicamente.
Sem querer forçar a natureza desta obra de misericórdia, não se poderia entendê-la de uma forma mais ampla, como por exemplo, simplesmente “acolher” na vida familiar, na convivência, no afeto, no dedicar algum tempo? Na escravidão de compromissos intermináveis e espaços curtíssimos entre uma novela e outra, arrumar um tempo, e simplesmente se dispor em “acolher”?

- Assistir os enfermos:
Os Evangelhos relatam abundantemente, momentos em que Jesus acolhe, atende, socorre e cura os doentes. As  vezes eram levados a Ele no entardecer  (Mc 1,32-34); em outras pediam que Ele fosse até a casa do enfermo, como fez o oficial que pediu a cura do filho que estava morrendo (Jo, 4, 46-53). Vale lembrar a ação de Jesus, quando na casa de Pedro, cura sua sogra (Mt 8, 14-15). Jesus se desdobrou em misericórdia para com os doentes.
Maria, mesmo grávida, andou quilômetros para ajudar e pôr-se a serviço da idosa Isabel, sua prima, grávida de seis meses.
A obra de misericórdia: assistir os doentes começa na família quando se lida com doenças prolongadas e, às vezes irreversíveis. Seja em qualquer idade, e por qualquer problema de saúde, que podem ser, entre tantos: o câncer, as paralisias, a anencefalia, e socorrer sem preconceito os portadores do vírus HIV.
Trata-se também de um trabalho voluntário em hospitais, asilos, e casas de recuperação terapêutica. Estende-se a uma pastoral urbana que visite e acompanhe aqueles que, nos grandes centros urbanos vivem a dor de sua enfermidade na solidão, e no esquecimento.
De forma profética esta obra de misericórdia questiona a ausência de uma pastoral de saúde, tanto em nossas comunidades paróquias, como nos hospitais, que efetivamente possam marcar presença nestes momentos de fragilidade, e vulnerabilidade do ser humano.
Muitos se perguntam: o que fazer para um doente gravemente enfermo?
A resposta é simples, às vezes nada, apenas “estar” presente junto ao que sofre. Misericórdia e solidariedade é estar perto de quem sofre, mesmo sem entender a extensão do sofrimento,  pois o pulsar e o latejar da dor é próprio só de quem está machucado.
Assistir os doentes até o fim é uma obra de misericórdia conflitante a toda e qualquer idéia de eutanásia e  similares.
Implica inclusive em oferecer, além de recursos físicos, e terapêuticos necessários, a assistência religiosa e espiritual. Fato este que familiares estão se esquecendo e negligenciando.

- Dar de beber ao sedento
Nosso Mestre Jesus disse: “Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa” (Mt 10, 42). Em nossos tempos esta obra de misericórdia  parece sem sentido, quando cada um tem água encanada, com facilidade em seus lares. Pensa desta forma quem tem o privilégio de viver longe da seca, e dos desafios de andar, em pleno Século XXI, muitos quilômetros para buscar água em açudes, e em carros pipas, num Brasil de graves contrastes sociais que clama aos céus igualdade de direitos.
Podemos não ter como, diretamente praticar esta obra de misericórdia nas regiões do Brasil que sofrem o flagelo da seca, mas podemos de forma indireta fazê-lo. Sabemos que água é vida, e que a médio ou longo prazo tende a ser um “tesouro” que se extingue. A consciência  cristã e ecológica impele a “copos d’água” que são dados quando exercitamos o uso responsável da água potável. O uso correto, consciente, e sem desperdício da água  é um desmembrar desta obra de misericórdia.
Não obstante, Jesus Cristo, nas bem-aventuranças, fala da sede, porém de uma “sede de justiça” (Mt 5, 6). A sede saciada de justiça não seria o saciar a sede real de água, de dignidade e de solidariedade?

- Vestir os nus
Chamados somos nós, a sermos discípulos de um Mestre que Evangelhos relatam, exortou: “Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem” (Lc 3, 11a)
O apóstolo Tiago  escreveu à comunidade que lhe foi confiada pastorear: “Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano,  e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma. (Tg 2, 15-17).
Recentemente, deparei-me com uma situação muito triste, percebi que uma senhora levava muitas peças de roupas, e pares de sapato para um bazar beneficente. O que a principio parecia uma atitude louvável, na realidade era fruto de uma compulsão em comprar, e uma forma velada de esvaziar o guarda-roupa e sapateira para sempre ter espaço que acomodasse os artigos de suas compras, nas freqüentes visitas aos shopping. Caridade? Obra de misericórdia? Creio numa partilha de bens, onde a atitude condiz com a intenção e a real motivação.
Em contra partida soube de algo edificante: uma pessoa após observar que seu colega de trabalho, recém contratado, passou semanas com a mesma calça, se deu conta que era a única que ele tinha, então com muita sutileza, e descrição para não humilhar o colega, o presenteou com uma calça jeans.

- Socorrer os prisioneiros
Ficará à direita de Deus, no grupo dos bem-aventurados, aquele que visitou os que estavam na prisão (Mt 25, 36).
Hoje o acesso nos presídios não é livre, há um certo rigor e triagem para visitas à presidiários. Porém, nossas dioceses ainda são deficientes em se tratando de uma pastoral carcerária efetiva, e dinâmica.
Os presidiários são lembrados em época de eleição, com falsas promessas de novos presídios a serem construídos, caso o candidato ganhe a eleição. E, quando acontecem as rebeliões que, quanto mais violentas e longas, mais espaço terão na mídia. Inclusive inspirando filmes premiados. Mas, a realidade dos presos, logo cai no esquecimento.
Há pouco tempo, um presidiário que na prisão acompanha meu programa de rádio,  escreveu-me partilhando: “minha família não me visita, porque têm vergonha de mim, mas eu também tenho deles...”
A obra de misericórdia socorrer os prisioneiros, também se estende ao socorro às famílias dos presidiários (as); auxiliando economicamente as que necessitam, e ajudando-as a superarem os preconceitos.

- Enterrar os mortos
Crer na ressurreição da carne, na vida eterna, faz parte da oração pela qual professamos nossa fé.
No Livro de Tobias encontramos o seguinte: Tobitcom uma solicitude toda particular, sepultava os defuntos e os que tinham sido mortos (Tb 1, 20).
O Novo Catecismo da Igreja Católica, assim diz: “Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo” (CIC § 2300).
 Cada pessoa é templo do Espírito Santo e mesmo depois de morta, seu corpo merece respeito.
A Igreja permite a cremação do corpo, desde que não seja um ato que se faça numa manifestação de contrariedade à fé na ressurreição dos mortos (CIC § 2301). A doação gratuita de órgãos não é um desrespeito ao corpo quando desejada pela própria pessoa, é uma pratica legitima, incentivada pela Igreja como meritória.
Acredito seriamente que o velório, ou guarda do corpo é muito válido, importante e edificante, tanto para o morto, como para os familiares.
Da parte do falecido pelas orações feitas em seu favor, da parte dos familiares pela oportunidade de perdão, conversão e reflexão. Sobre isto aprenderemos mais nas obras espirituais. São elas: instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência,  e rezar pelos mortos (esta ultima é item apresentado no capitulo IV do catecismo de São Pio X).No momento limito-me apenas em citá-las. Em outro artigo, refletiremos detalhadamente sobre elas.
Finalizando este artigo, partilho com você, caro(a) leitor (a), algo que marcou-me muito na infância. Certo dia, minha mãe na sua simplicidade, disse-me: “filho, Jesus Cristo, às vezes desce do céu e se veste com roupas de mendigo, anda pelas ruas e bate nas casas pedindo esmola. Nunca se desfaça de uma pessoa pobre”. Certamente, para alguns não passará de “lorota”, mas há muito de verdade neste ensinamento.  “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, era peregrino e me acolheste, nu e me vestiste...(Mt 25, 35-40).”